Não só de campanha nas ruas vive a disputa por uma vaga de deputado no Ceará. Para garantir uma cadeira na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), é preciso estar afiado também na matemática eleitoral.
Isso acontece porque deputados federais e estaduais são eleitos pelo sistema proporcional. Nele, o candidato não depende, na maioria das vezes, apenas da própria votação, mas também da soma de votos de todas as candidaturas do partido ou da federação em que está filiado.
Logo, cada sigla terá uma ‘linha de corte’ distinta para eleger um parlamentar — o que significa que, às vezes, alguém pode ficar de fora das vagas mesmo tendo uma votação individual superior a um candidato eleito. Mas, isso só é possível se os dois pertencerem a partidos diferentes.
Esse cálculo não é simples e, ao conversar com parlamentares cearenses, muitos admitiram ao PontoPoder que não são tão bons dessa matemática eleitoral, mesmo com anos de legislativo. Outros, usam até planilhas para projetar o potencial de votos não apenas deles próprios, como também de colegas de partidos e dos candidatos de outras legendas.
Quer entender como funcionam os cálculos que podem definir quem será eleito para a bancada cearense na Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa do Ceará? O PontoPoder explica todos os fatores que influenciam nessa matemática e traz quais os números que podem definir os mandatos dos parlamentares cearenses.
Coeficiente eleitoral, partidário e sobras
Existem três expressões que precisam ser compreendidas antes de iniciar qualquer projeção sobre a eleição de deputados — federais ou estaduais. A primeira delas é o coeficiente eleitoral.
É importante lembrar que, no sistema proporcional, quem conquista a cadeira é o partido ou federação partidária. Para saber quantas cadeiras cada sigla irá ter, é feito uma divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras da casa legislativa.
Na Alece, são 46 vagas. Já a bancada cearense na Câmara Federal, possui 22 cadeiras.
Na sequência, é feito o cálculo do coeficiente partidário. Para ele, os votos obtidos por cada sigla — somando a votação de todas as candidaturas com os votos de legenda — são divididos pelo valor do quociente eleitoral.
O resultado desse cálculo permite saber quantas cadeiras vão ser ocupadas por aquele partido ou federação. Nos bastidores, isso é chamado de vaga ou cadeira “cheia”. Ou seja, são aquelas conquistadas inteiramente com a votação partidária.
Para elas, são eleitos os candidatos mais votados de cada partido, desde que tenham obtido, pelo menos, 10% do valor do coeficiente eleitoral. A título de exemplo, se o coeficiente eleitoral for 100 mil votos, o candidato precisa ter 10 mil votos.
Sobras eleitorais
Com as vagas “cheias” definidas, existe a possibilidade de sobrar cadeiras não preenchidas. Elas são chamadas de sobras eleitorais.
O cálculo para preenchê-las é diferente e mais complexo, fazendo com que mesmo os mais afiados nessa matemática eleitoral, preferem não fazer projeções tão definitivas.
Para participar dessa nova divisão, o partido precisa ter alcançado 80% do coeficiente eleitoral e ter candidatos com votação individual mínima de 20% deste coeficiente.
A decisão de quem fica com as sobras é feita pela média de cada legenda, calculada na divisão da quantidade de votos válidos que o partido recebeu pelo quociente partidário (ou seja, o número de vagas conquistadas pelo partido) acrescido de 1.
Se ainda houver vagas, mas não houver mais partidos que alcançaram 80% do quociente eleitoral, todas as siglas concorrem às chamadas “sobras das sobras”. Aquelas com maiores médias, conquistam as cadeiras restantes.
Quantos votos elegem um deputado federal pelo Ceará?
A previsão de deputados federais ouvidos pelo PontoPoder é de que o coeficiente eleitoral para a Câmara Federal no Ceará deve ficar entre 230 mil e 240 mil votos.
A estimativa ocorre com base no coeficiente eleitoral de 2022, que foi de 228,8 mil votos, e no fato que o número de eleitores cearenses cresceu nestes quatro anos.
A projeção dos parlamentares é que, com raras exceções, os que desejarem ser eleitos deputados federais pelo Ceará precisam obter, pelo menos, 100 mil votos sozinhos. As exceções devem ficar por conta de partidos que tenham puxadores de votos ou dos deputados federais eleitos nas sobras.
O deputado federal Robério Monteiro (PSB) afirmou que, em 2026, a disputa tem sido “diferente” e com uma “concorrência maior” do que em anos anteriores.
“Antes, a concorrência maior era (para deputado) estadual”, argumenta Monteiro. Ele, que está no segundo mandato na Câmara dos Deputados, pontua como uma das explicações a facilidade de acesso ao Fundo Eleitoral, que em 2026 é o maior da história, com quase R$ 5 bilhões nacionalmente.
Outro fator, citado por diversos deputados, é o fato da quantidade de deputados federais eleitos e da votação total do partido para a Câmara dos Deputados serem os principais elementos para a distribuição do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.
As maiores bancadas
A projeção de Robério Monteiro é de que a bancada eleita pelo PSB seja de quatro parlamentares. Assim, o partido manteria o número de deputados federais eleitos pelo PDT em 2022 — na época, o grupo político liderado pelo senador Cid Gomes (PSB) estava neste partido.
Está excluído dessa conta o deputado federal André Figueiredo (PDT), que permaneceu como pedetista e deve tentar a reeleição. Na época, o partido tinha uma das maiores bancadas, com cinco deputados federais.
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Em 2022, o PL também conquistou cinco cadeiras. A aposta para este ano é manter a bancada e “lutar” pela sexta cadeira, afirma o deputado federal Dr. Jaziel (PL). Para isso, o partido confia no aumento de votos do deputado federal André Fernandes (PL), o que o transformaria em um puxador de votos da legenda.
A projeção, inclusive de parlamentares de outros partidos, é de que André possa ultrapassar os 300 mil votos — no PL, alguns apostam inclusive que ele fique entre 250 mil e 400 mil. Há quatro anos, ele foi o campeão de votos no Ceará, com mais de 228,8 mil votos.
Dr. Jaziel afirma que o PL pode chegar ao sexto deputado federal, a depender da votação do colega. Para ele, caso isso se confirme, o último eleito poderia entrar com 75 mil votos.
“Mas os outros têm que chegar a mais de 100 mil votos. É de 100 mil para frente. Para fazer 5 (deputados federais), depende de (o partido ter) 1 milhão de votos. Não vai ser moleza”, pontua.
Hoje, entre as maiores bancadas eleitas pelo Ceará também está a federação União Progressista — que em 2022, ainda era dois partidos separados com União Brasil e PP. O PontoPoder tentou contato com o presidente da federação no Ceará, Capitão Wagner (União) e também com os deputados federais da sigla, mas não teve retorno.
Deputados apostam na manutenção das bancadas
Alguns partidos apostam em manter o tamanho das bancadas, seja aquela conquistada em 2022 ou a que passou a possuir após a janela partidária em 2026. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, por exemplo, aposta que manterá três deputados federais eleitos há quatro anos — apesar da saída de Luizianne Lins (Rede) e da ausência de candidatura à reeleição de José Guimarães (PT).
O deputado federal Eduardo Bismarck (PV) pontua que as vagas devem ser mantidas, mas considera que a federação não deve conseguir brigar pela quarta vaga nas sobras. Ele reforça o número de votos mínimos para ser eleito: “Nenhum pode ficar abaixo de 100 mil”.
O MDB também considera que manterá dois federais eleitos na eleição passada. “Inclusive buscando as primeiras colocações no geral”, pontua o deputado federal Yury do Paredão (MDB). O parlamentar evitou falar sobre um número mínimo de votos para ser eleito pelo partido.
O deputado estadual Danniel Oliveira (MDB), também dirigente partidário do MDB, falou sobre a possibilidade do partido possa fazer uma terceira vaga nas sobras, caso os primeiros colocados se confirmem como “puxadores de votos”. Com isso, a expectativa é de que o terceiro possa entrar com 70 mil ou 80 mil votos.
Bancada cearense na Câmara dos Deputados é formada por 22 deputados federais.
Reprodução/Redes sociais.
O PSD, por sua vez, quer manter a bancada. Apesar de ter eleito apenas dois em 2022, os deputados federais Fernanda Pessoa (PSD) e Célio Studart (PSD) se filiaram ao partido na janela partidária. “Estamos na expectativa de termos quatro deputados federais representantes do Ceará pelo PSD”, disse Pessoa.
Novos partidos
Dois partidos são citados como possíveis estreantes na bancada cearense da Câmara dos Deputados, enquanto outros podem retornar a representar o estado. Entre os estreantes são citados o PRD e o Psol.
Deputados federais ouvidos pelo PontoPoder, citam a possibilidade do PRD conquistar uma vaga, principalmente por conta da presença da ex-prefeita de Russas, Giordanna Mano (PRD), esposa do deputado federal Júnior Mano e que pode herdar os votos dele, que é candidato a suplente de senador.
O deputado estadual Renato Roseno (Psol), que é candidato a federal, pontua que o partido tem feito esforços para eleger o primeiro deputado federal pelo Nordeste. “A decisão nacional de eu ir a federal, de ser prioridade nacional era também da gente ter um nome do Psol do Nordeste lá”, explica.
Existe ainda a perspectiva de partidos como o Republicanos e o PSDB retornarem, segundo os parlamentares ouvidos pelo PontoPoder. Os dois partidos tinham anteriormente deputados federais, mas estão fora da atual bancada cearense.
Votos necessários para ser eleito deputado estadual no Ceará
Para ser eleito a deputado estadual, a quantidade de votos necessários deve ser um pouco menor do que entre os federais. Contudo, a depender do partido, a votação individual ainda precisa ser elevada, devido a quantidade de candidaturas com alto potencial de voto.
A aposta é de que PSB e a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) tenham as maiores “linhas de corte”, ou seja, para serem eleitos nessas siglas, os candidatos vão precisar fazer um número superior ao de outras legendas. Os dois, consideram os parlamentares ouvidos pelo PontoPoder, devem ter as maiores bancadas.
Na oposição, o PL e a federação formada por PSDB e Cidadania devem liderar, embora com números inferiores aos dos dois partidos governistas, segundo os deputados estaduais.
A previsão é de que o quociente eleitoral fique em torno de 115 mil votos, um aumento pequeno em relação a 2022, quando o valor foi de 109,5 mil votos.
Líder do PSB na Alece, Marcos Sobreira (PSB) disse que a meta inicial do partido era eleger número semelhante ao do PDT em 2022, com 13 vagas. “Mas tivemos muitas adesões. A nossa meta hoje são 14 vagas confirmadas e que a gente dispute a 15ª vaga”, afirma.
A perspectiva, segundo ele, é que algumas candidaturas consigam fazer sozinhas o quociente eleitoral, o que ajudaria a baixar o número de votos do último candidato eleito pelo partido — a chamada “linha de corte”. O cálculo dele é de que, em “partidos grandes”, será preciso, pelo menos, 55 mil votos para o candidato ser eleito.
Nos bastidores, no entanto, alguns apostam que a linha de corte do PSB pode ser maior, ultrapassando os 60 mil votos. Quem também deve precisar de votação alta para ser eleito são os candidatos da Federação Brasil da Esperança, que hoje é a segunda maior bancada da Alece.
O deputado estadual De Assis Diniz (PT) afirma que a sigla deve conquistar 12 cadeiras, com a possibilidade de fazer uma 13ª vaga. “A federação ficará entre 52 e 54 mil votos (o último eleito)”, projeta.
Bancadas de Oposição
Na coligação do candidato à oposição do Governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), o PL e a federação formada por Cidadania e PSDB tentam ampliar as bancadas.
Na Assembleia Legislativa do Ceará, estão em disputa 46 vagas.
Júnior Pio/Alece.
No caso do Partido Liberal, a meta é eleger seis ou sete deputados estaduais, afirma a deputada estadual Dra. Silvana (PL). “Vai ter mais voto, porque todo mundo tem voto. É uma ótima musculatura”, afirma sobre os candidatos do partido em 2026.
Ela pontua ainda que o PL é um partido que tem “força” nos votos de legenda, aqueles que são dados apenas ao número do partido e contribuem com o total de votos da legenda e, portanto, na conquista de mais cadeiras pela sigla.
Ela cita o PL e também o PT como partidos com maior militância e que, por isso, tem maior força nestes “votos livres”. O deputado estadual Felipe Mota (PSDB) reforça ainda que a sigla tucana também deve se beneficiar desse voto de legenda, devido a candidatura majoritária de Ciro Gomes.
Ou seja, se os eleitores votarem, para deputado estadual, apenas nos números de Ciro, é possível “aumentar o número de deputados”, afirma Mota. “PL, PT e PSDB devem ter a variável do voto de legenda”.
Mota afirma que a meta do PSDB é fazer 7 deputados estaduais. Segundo ele, além dos votos de legenda, a definição das sobras pode aumentar esse valor. “Essas vagas que sobram, (devem ser) de 3 a 4 vagas, não estão definidas e devem ficar com as três maiores bancadas: PSB, PT e PSDB”, disse.
Para ele, o último eleito pela agremiação tucana deve ficar entre “35 mil e 39 mil votos”, disse. O parlamentar fez ainda uma aposta de que o deputado estadual eleito com a menor votação deve ter, pelo menos, 23 mil votos — em 2022, o eleito com menos votos teve 17,2 mil.
Como ficam as outras bancadas na Alece?
O deputado estadual Danniel Oliveira projeta que o MDB deve conseguir manter a bancada, que hoje tem três parlamentares. “Pensando na possibilidade da sobra, vai brigar por uma quarta vaga. Vai depender das votações dos três que forem os primeiros”, disse.
Se a quarta vaga se confirmar, ele considera que a linha de corte do MDB deve ficar em torno dos 35 mil votos.
Já Renato Roseno falou sobre a meta de ampliar a bancada do partido, que tem se mantido em um parlamentar.
“Há uma expectativa muito grande com a votação do vereador Gabriel (Aguiar). Eu acho que ele estará entre os deputados estaduais mais bem votados. Nós queremos, portanto, ter votações grandes para ter essa segunda vaga aqui na Assembleia do Ceará”, disse.
Os deputados entrevistados pelo PontoPoder citam ainda outros partidos que podem conseguir manter ou até ampliar as bancadas na Alece. Um dos exemplos é o PSD que tem a perspectiva de ampliar a bancada de dois para três deputados estaduais.
Outros partidos como Republicanos, PRD e a federação União Progressista também são cotados para conseguir eleger parlamentares para a Casa.
A informação é do site Diário do Nordeste.

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