O bispo de Cruzeiro do Sul (AC), dom Flávio Giovenale, defendeu que Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito presidente da República, dialogue com os eleitores que votaram em Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Em entrevista ao site italiano Tra Cielo e Terra, o religioso afirmou que o resultado das urnas exige atenção às diferentes visões políticas e que os eleitores da oposição não devem ser tratados indistintamente como extremistas.
“Lula terá que levar em conta os 60 milhões de pessoas que votaram no outro lado, terá que ouvi-las. E essas pessoas não são todas extremistas; a grande maioria são pessoas de bem, pessoas que têm uma visão diferente, preocupadas com o rumo que o Brasil estava tomando”, declarou.
Missionário salesiano, dom Giovenale tem 72 anos, nasceu na Itália e vive no Brasil há 52 anos. Ao analisar o resultado eleitoral, ele avaliou que a vitória de Lula foi “o melhor possível”, considerando a composição política do Congresso Nacional, que, segundo ele, tem maioria de direita e, em alguns casos, de extrema direita. Para o bispo, a presença de um presidente de esquerda diante de um Parlamento com perfil mais à direita exige capacidade de negociação. Ele defendeu “muito diálogo” para reduzir os efeitos da polarização e evitar retrocessos sociais.
Bispo aponta risco de retrocesso e critica discursos extremistas
Dom Giovenale relacionou parte da reação do eleitorado a declarações feitas por políticos eleitos após o primeiro turno. Segundo ele, manifestações sobre escravidão e direitos trabalhistas provocaram preocupação e protestos. Na avaliação do religioso, algumas posições que antes estavam disfarçadas passaram a ser expostas após os resultados da primeira etapa da eleição, quando seus defensores se sentiram fortalecidos.
O bispo considerou que a reeleição de Lula pode contribuir para um cenário melhor para o país, mas ressaltou que o presidente precisará considerar as demandas de quem não votou nele.
Lula terá que governar para todos, afirma religioso
Na entrevista, dom Giovenale também apontou a polarização como um dos principais desafios do país. Para ele, Lula tem experiência política e capacidade para construir pontes entre grupos com visões diferentes. O religioso, no entanto, demonstrou preocupação com a equipe que acompanhará o presidente. Segundo ele, nem todos os aliados de Lula teriam a mesma experiência e a convicção de governar para toda a população, e não apenas para os próprios eleitores.
Dom Giovenale também avaliou que a esquerda enfrenta dificuldades para formar lideranças capazes de unir diferentes setores da sociedade. Para ele, a continuidade política depende da capacidade de construir lideranças e promover alternância entre visões distintas.
Bispo assinou carta de apoio a Lula
Dom Flávio Giovenale foi um dos mais de 60 bispos católicos que assinaram a “Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026”, publicada dois dias antes da votação. O documento manifestou apoio à reeleição de Lula e fez críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo o bispo, a carta chegou a reunir cerca de 70 assinaturas e ficou conhecida como “carta dos 70”. Ele afirmou que o documento buscou apresentar temas como democracia, soberania nacional e bem comum a partir dos princípios da Doutrina Social da Igreja.
Giovenale disse que foi um dos primeiros signatários e declarou apoiar integralmente o conteúdo da carta.

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