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EDITORIAL/OPINIÃO

“Circuito de Quadrilhas” em uma cidade que Clama por Socorro

Para a população, o “investimento” no São João parece não chegar ao balcão do posto de saúde.

Por Albertoh Duarti 19/04/2026 às 12:58
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“Circuito de Quadrilhas” em uma cidade que Clama por Socorro

Enquanto os fogos de artifício iluminam o céu de Maracanaú para anunciar o “Circuito Nordestino de Quadrilhas Juninas”, o brilho das luzes da festa não consegue esconder as sombras que assolam os corredores do Hospital Municipal Dr. João Elísio de Holanda. O recente anúncio da deputada federal Fernanda Pessoa — herdeira do clã que governa a cidade — é mais do que um projeto de lei; é um atestado de desconexão com a realidade e um tapa na face do cidadão que padece em filas de espera por um atendimento que nunca chega.

 

A deputada utiliza termos sedutores como “motor de desenvolvimento” e “geração de renda”. No entanto, os números e os fatos contam uma história de horror. Em fevereiro e março de 2026, o Sindicato dos Médicos do Ceará (SIMEC) expôs as entranhas de uma saúde municipal em estado de decomposição.

 

Enquanto a deputada foca no “reconhecimento federal” de festas, o sindicato oficializou denúncias de escassez de medicamentos críticos (para epilepsia e alergias) e o fechamento de salas de cirurgia. Realizar procedimentos cirúrgicos em maternidades por falta de estrutura não é “desenvolvimento”, é negligência criminosa que coloca em risco a vida de recém-nascidos e enfermos.

 

A gestão defende que o São João atrai milhões. De fato, em 2024/2025, o evento movimentou cifras astronômicas, mas para onde vai o retorno desse “investimento”?

Na Saúde: O que se vê são médicos sob pressão absurda, com a imposição de metas de 300 atendimentos mensais sob pena de corte salarial. É a industrialização do sofrimento humano para equilibrar contas que não fecham.
Na Educação: A realidade desmente o marketing. O sindicato Suprema tem denunciado o descumprimento de leis municipais e o abandono de profissionais. O “7º lugar nacional em alfabetização” soa vazio quando centenas de crianças com deficiência continuam sem cuidadores nas escolas, sendo excluídas do processo de aprendizagem por pura falta de verba pública — a mesma verba que sobra para contratar artistas nacionais com cachês de quase um milhão de reais.

O anúncio da deputada fala em “integrar cidades ao calendário oficial”. Mas quem vai integrar os moradores do Mucunã, Jaçanaú e Jardim Bandeirante à dignidade básica? Em 2025, o abandono de obras de asfaltamento transformou ruas em cenários de guerra, onde a lama no inverno e a poeira no verão castigam a saúde respiratória das crianças.
A promessa de “impulsionar o turismo” é um escárnio para quem acorda com o esgoto a céu aberto na porta de casa ou para quem viu sua conta de água subir 1.000% no início de 2026 sem qualquer melhoria no serviço da Cagece ou da prefeitura.

 

Um projeto de lei para criar um circuito de quadrilhas é uma pauta cosmética diante de uma cidade que sangra. Não faz sentido porque:

 

Prioridade Orçamentária: Um representante do povo deve priorizar o direito à vida. O silêncio da deputada sobre a crise hospitalar em sua própria base política, enquanto promove festas, é uma escolha deliberada pela imagem em vez da substância.
A Falácia do Emprego: Os empregos gerados pelo São João são temporários e precários (vendedores ambulantes e seguranças). Eles não sustentam uma família o ano inteiro e não compensam a falta de assistência médica que essas mesmas famílias enfrentam nos outros 11 meses.
Incoerência Legislativa: Enquanto tenta nacionalizar o São João, a deputada ignora o clamor dos médicos de sua cidade que trabalham em condições insalubres e dos professores que têm seus planos de carreira congelados.

 

O Nordeste realmente merece reconhecimento, mas não às custas do sucateamento de seus serviços básicos. O anúncio de Fernanda Pessoa tenta vender uma Maracanaú “vitrine”, pronta para o turista ver, enquanto esconde a Maracanaú “porão”, onde o povo sofre.
Não há quadrilha junina, por mais bela que seja, que consiga dançar sobre o descaso de um hospital sem insumos. A verdadeira “tradição” que precisa ser fortalecida em Maracanaú não é a das festas, mas a do respeito ao erário e à vida do cidadão. Menos confete, deputada, e mais remédio no posto. Menos marketing, e mais cuidadores nas escolas. O povo não se alimenta de luzes de palco; o povo precisa de dignidade.

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